Atenta ao colapso ambiental, finalista do Jabuti lança ficção climática para adultos e crianças em São Paulo

 


Mariana Brecht aborda ecoansiedade, 'greenwashing' e redes de apoio comunitário em dois livros que cruzam ficção científica, ecologia e afeto.

Por Jean Chambre — São Paulo

12/06/2026 18h45 — Atualizado há alguns segundos

Enquanto a comunidade científica emite alertas globais para a possível volta do fenômeno climático El Niño e a escalada de eventos extremos, a literatura contemporânea brasileira começa a deglutir a emergência ambiental não mais como um pano de fundo, mas como a própria matéria-prima de suas histórias.

É neste cenário que a escritora, roteirista e pesquisadora paulista Mariana Brecht, finalista do Prêmio Jabuti, consolida sua produção com dois novos títulos voltados para a chamada cli-fi (ficção climática).

Os lançamentos, publicados entre 2025 e 2026, miram públicos de diferentes faixas etárias, mas dividem o mesmo senso de urgência: como criar e imaginar futuros possíveis quando as certezas do presente começam a ruir?

'Greenwashing' e solastalgia no interior paulista

Para os leitores adultos, a autora lançou o romance "Foi acabar bem na nossa vez" (Editora Rocco). A narrativa, ambientada em meados da década de 2030, acompanha Maria Clara, uma designer de games que perde o emprego com a recessão do mercado de tecnologia e se vê forçada a retornar para sua cidade natal, no interior de São Paulo.

Lá, ela reencontra Antônio, seu amor de juventude, que agora coordena uma agrofloresta comunitária que alimenta os moradores locais. O conflito central surge quando a prefeitura tenta despejar o projeto agrícola para dar lugar a uma monocultura de eucaliptos, uma suposta iniciativa de compensação de carbono que, na verdade, mascara uma prática de greenwashing (maquiagem verde para ocultar impactos ambientais negativos).

A obra adota uma perspectiva política e filosófica ousada ao dar voz a elementos da natureza — como sementes de feijão, o sol e a própria Terra —, numa tentativa de dissolver as fronteiras estéticas entre a humanidade e o meio ambiente. O livro explora o conceito de solastalgia, termo cunhado pelo filósofo Glenn Albrecht para descrever a angústia e o luto de ver o lugar que se ama desaparecer devido à destruição ambiental.

Da ecoansiedade infantojuvenil à ação coletiva

Para os leitores em formação, Mariana lança este ano o infantojuvenil "Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas" (Selo Escarlate, da Companhia das Letras). O projeto foi viabilizado com o suporte da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e conta com ilustrações da artista Lumina Pirilampus.

A trama constrói uma versão futurista da capital paulista que precisou se reorganizar estruturalmente diante do colapso ecológico: as escolas gerenciam os resíduos de forma diária, o currículo escolar foi adaptado e os moradores precisam plantar o próprio alimento.

Os protagonistas são Cyber PANC, uma garota de comportamento expansivo que perde o dom de fazer plantas brotarem após o falecimento da tia, e Só Zé, um menino tímido e profundamente ansioso que enxerga perigo em tudo.

Traduzindo conceitos de pensadores como Ailton Krenak, Donna Haraway e Antônio Bispo para uma linguagem lúdica, a autora discute a ecoansiedade infantojuvenil e mostra que soluções sustentáveis não dependem de grandes heróis ou de promessas tecnológicas milagrosas, mas sim da criação de redes de afeto e assembleias comunitárias.

Trajetória entre os livros, os games e a academia

A pesquisa literária de Mariana corre em paralelo com sua carreira de destaque no design de narrativas para jogos digitais. Ela foi corroteirista de "A Linha", jogo em realidade virtual (VR) que faturou o prestigiado prêmio Primetime Emmy e o troféu de Melhor Experiência em VR no Festival de Veneza. Desde o ano passado, ela também integra a equipe de criação do jogo internacional Loftia.

Nascida em São Roque (SP), na divisa ecológica entre a Mata Atlântica e o Cerrado, Mariana atualmente desenvolve sua pesquisa de mestrado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde investiga justamente os impactos e as conexões entre as estruturas narrativas contemporâneas e a crise climática global.

Serviço

  • "Foi acabar bem na nossa vez" (Romance, Ed. Rocco). Disponível nas livrarias físicas e digitais.

  • "Cyber PANC e Só Zé" (Infantojuvenil, Selo Escarlate/Companhia das Letras). Sistema de pré-venda já liberado nos canais oficiais da editora.