Ficção científica gravada em meio a enchentes no RS e com imagens de IA ganha data de estreia nos cinemas

 


'FUTURO FUTURO', do cineasta Davi Pretto, venceu o Troféu Candango de Melhor Filme no Festival de Brasília. Longa distópico de baixo orçamento chega às telas em 23 de julho.

Por Jean Chambre — Porto Alegre

16/06/2026 14h55 — Atualizado há alguns segundos

O cinema independente brasileiro ganha um de seus capítulos mais desafiadores e debatidos da temporada. A distribuidora Cajuína Filmes confirmou para o dia 23 de julho de 2026 a estreia nacional nos cinemas de “FUTURO FUTURO”, o novo longa-metragem do cineasta gaúcho Davi Pretto.

A produção desembarca no circuito comercial chancelada por uma trajetória de prestígio em festivais. Após sua estreia mundial no Festival Internacional de Karlovy Vary, na República Tcheca — um dos polos cinematográficos mais antigos da Europa —, o drama de ficção científica consagrou-se como o grande vencedor do Festival de Cinema de Brasília, onde faturou o cobiçado Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Oficial, além dos prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Montagem e uma Menção Honrosa para o protagonista Zé Maria Pescador.

O projeto, que transforma a capital gaúcha em uma metrópole futurista e decadente, marca o quarto longa da carreira de Pretto, diretor conhecido por obras como Castanha (2014), Rifle (2016) e o recente suspense Continente (2024).

Distopia real: gravações foram inundadas pela tragédia climática de 2024

Os bastidores de "FUTURO FUTURO" carregam uma crônica que mistura a ficção lo-fi ao drama real enfrentado pelo Rio Grande do Sul. Concebida como uma obra de baixíssimo orçamento com plano de filmagem de apenas 16 dias, a produção teve seus trabalhos interrompidos abruptamente por meses em decorrência da maior enchente da história do estado, em maio de 2024.

O desastre climático inundou por completo as locações que serviriam de cenário para o desfecho da narrativa. Diante da escassez de recursos financeiros para refazer os sets e da impossibilidade física de acessar os locais originais, o diretor Davi Pretto adotou uma solução estética radical: incorporou imagens geradas por Inteligência Artificial (IA) para concluir o filme.

O recurso técnico, que já estava previsto no roteiro como o elemento distópico da trama, passou a ser utilizado também como ferramenta de edição para driblar a perda das locações. O resultado é um filme que investiga, de maneira provocativa e poética, o absurdo e as limitações das imagens artificiais, que hoje redefinem o mercado de trabalho e a própria percepção humana do que é real.

Síndrome neurológica e trabalhadores de cliques

A sinopse se passa em um futuro próximo, onde os avanços desenfreados da inteligência artificial coincidem com o surto de uma nova e misteriosa síndrome neurológica que apaga memórias. É nesse cenário que K (vivido pelo ator potiguar Zé Maria Pescador), um homem de 40 anos sem qualquer lembrança de seu passado, acaba acolhido por um clickworker (trabalhador de cliques de dados) solitário de 60 anos, interpretado por João Carlos Castanha.

Morando na periferia empobrecida de uma chuvosa e cinzenta cidade brasileira, K se inscreve em um curso de reabilitação para pessoas afetadas pela doença. No local, ele passa a utilizar um dispositivo de IA altamente viciante, iniciando uma jornada trágica e absurda para tentar reconstruir sua identidade.

O elenco conta ainda com Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro e traz a participação especial da atriz Olivia Torres (Ainda Estou Aqui, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional), que empresta sua voz para interpretar o sistema de Inteligência Artificial que guia os personagens.

"Ao imaginar um futuro marcado pelos impactos da tecnologia, o filme convida o público a refletir criticamente sobre os rumos do desenvolvimento digital na nossa vida cotidiana. O BNDES acredita na força do audiovisual para estimular esse diálogo social relevante", aponta Marina Moreira, superintendente da Área de Relacionamento, Marketing e Cultura do BNDES, órgão federal que patrocina a distribuição do longa por meio de edital de fomento cultural.

Serviço e Ficha Técnica – Estreia de “FUTURO FUTURO”

  • Data de Estreia: 23 de julho de 2026

  • Distribuição: Cajuína Filmes e Atelier W

  • Gênero: Drama, Lo-fi, Sci-fi | Duração: 86 minutos

  • Direção e Roteiro: Davi Pretto

  • Produção: Paola Wink e Jessica Luz (Vulcana Cinema)

  • Financiamento e Apoio: Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), BRDE, Ancine, FAC-RS e patrocínio cultural do BNDES.