Cineasta Dandara Ferreira lança 'Anatomia do Caos', documentário sobre bastidores da CPI da Covid

 


Após estrear na ficção com cinebiografia de Gal Costa, diretora baiana investiga omissões do governo Bolsonaro na pandemia. Longa chega aos cinemas em 2º de julho e terá debates em capitais.

Por Jean Chambre — São Paulo

16/06/2026 00h42 — Atualizado há alguns segundos

Depois de estrear no cinema de ficção comandando a elogiada cinebiografia “Meu Nome É Gal” (2023), protagonizada por Sophie Charlotte, a cineasta baiana Dandara Ferreira retorna ao circuito de salas comerciais com um projeto de forte teor político. No dia 2 de julho, chega aos cinemas de todo o país o longa-metragem “Anatomia do Caos”, documentário que joga luz sobre a gestão e as omissões do governo de Jair Bolsonaro durante a crise sanitária do coronavírus.

Com distribuição assinada pela Descoloniza Filmes, a obra utiliza como fio condutor o material de arquivo e os registros de bastidores captados durante os trabalhos da CPI da Covid no Senado Federal, com o objetivo de tensionar os conceitos de memória coletiva, desinformação e justiça no Brasil.

O documentário relembra as decisões deliberadas do Poder Executivo Federal e a postura de parlamentares aliados de extrema direita na condução da crise de saúde pública, fatores que culminaram na morte de mais de 700 mil brasileiros. A produção traz à tela documentos sigilosos, investigações internas e depoimentos exclusivos de senadores que buscavam respostas técnicas para conter o avanço do vírus.

Teatro político e a política do deboche

A imersão de Dandara Ferreira nos corredores do Congresso Nacional começou em abril de 2021, auge do colapso hospitalar e da incerteza sanitária no país. O filme retrata a comissão parlamentar como o palco de uma tragédia nacional humanitária.

A edição explora os mecanismos retóricos do discurso oficial de Estado da época, desenhados para inflar uma confusão deliberada na população e colocar em xeque os consensos científicos mundiais, como a eficácia do uso de máscaras e das vacinas.

“O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo muito maior do que uma crise de saúde pública. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade de fatos. Não se tratava apenas de negligência ou imperícia técnica. Havia a construção de uma narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”, pontua a cineasta.

O documentário também avança para analisar um fantasma histórico das comissões de inquérito brasileiras: a falta de desfechos práticos após a entrega do relatório final. Segundo a diretora, a produção questiona o que significa para uma sociedade seguir adiante sem a devida responsabilização criminal de seus gestores públicos.

Circuito nacional de debates

Para impulsionar a reflexão sobre a história recente do país, o lançamento de “Anatomia do Caos” virá acompanhado por um amplo circuito de exibições especiais seguidas de debates com a presença física de Dandara Ferreira. Estão confirmadas sessões especiais em capitais estratégicas como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza.

O filme — roteirizado por Dandara em parceria com Élcio Verçosa Filho — tem direção de fotografia de Roberto Stuckert, trilha sonora de Fabrício Modesto e é uma produção conjunta das empresas Movioca Content House, Las Margaridas e LabAV.

Ficha Técnica e Perfis Oficiais

  • Título: Anatomia do Caos (Brasil | 2026)

  • Direção e Roteiro: Dandara Ferreira (Roteiro em parceria com Élcio Verçosa Filho)

  • Produção Executiva: Amadeu Alban, Dandara Ferreira, Gabriel Pires e Marcio Yatsuda

  • Direção de Fotografia: Roberto Stuckert

  • Montagem: Lara Beck e Renato Sircilli

  • Produção: Movioca Content House, Las Margaridas e LabAV

  • Distribuição: Descoloniza Filmes

A produtora principal da obra, a Movioca, é conhecida no mercado audiovisual brasileiro pelo desenvolvimento de formatos exportados internacionalmente, como o reality Drag Me as a Queen (coproduzido para o canal E! Entertainment) e o longa de animação Miúda e o Guarda-Chuva, exibido no Festival de Annecy.

Já a distribuidora Descoloniza Filmes, comandada por Ibirá Machado, mantém o foco corporativo no fomento de obras dirigidas por mulheres e na descentralização regional do mercado de cinema independente.