Em “A Contribuição Milionária de Todos os Erros”, trio de Brasília reúne 12 faixas, mistura boombap, música brasileira e eletrônica e recebe nomes como Emicida, Clara Lima e Tribo da Periferia.
Errar também pode ser parte do caminho para vencer — e o Puro Suco transformou essa ideia em álbum. Perto de completar dez anos de trajetória, o trio de rap de Brasília lança “A Contribuição Milionária de Todos os Erros”, seu terceiro disco de estúdio. O projeto chega três anos depois de “Cacau” (2023) e traz uma das parcerias mais especiais da carreira do grupo: uma faixa com Emicida.
Formado pelos MCs Murica e Peres e pelo produtor BEATDOMK, o Puro Suco apresenta 12 músicas que mergulham nas vivências das ruas, na identidade do grupo e na capacidade de transformar experiências difíceis em criação artística. O resultado combina a crueza do boombap com elementos eletrônicos e referências da música brasileira.
Por que os erros são milionários?
O título do disco tem inspiração no “Manifesto Pau-Brasil” (1924), de Oswald de Andrade, e resume a visão mais madura que o trio apresenta nesta nova fase.
“É como se, na grande mesa da nossa vida, quem mais contribuísse para chegarmos aqui fossem os erros, mais do que os acertos, porque os erros nos forjam”, explica Murica.
A ideia também representa uma mudança de perspectiva para o grupo: em vez de repetir fórmulas ou ficar preso a rótulos, o Puro Suco busca novos caminhos musicais e criativos.
Se antes a expressão “rap tropicalista” aparecia frequentemente para definir o som do trio, agora a proposta é assumir o presente sem deixar de lado as referências que construíram sua identidade.
“O Tropicalismo já foi, com Caetano, Torquato e Gal. O que fazemos carrega respeito e saudosismo, mas é música feita em 2025 e 2026. A gente é rap, a gente é música brasileira, com a nossa herança melódica”, afirma Murica.
Emicida divide faixa com o trio
Um dos grandes destaques do álbum é “7 Mil Caminhos”, colaboração com Emicida. A parceria tem um significado especial para o grupo, que cresceu acompanhando a trajetória do rapper e agora divide os microfones com uma de suas referências.
A conexão entre eles já vinha sendo construída. Emicida homenageou o Puro Suco na faixa “Vença”, parceria com Borges, e lançou o single “RPB”, inspirado em “De Volta ao Básico”, música do álbum “Cacau”. Agora, o encontro ganha mais um capítulo com a participação no novo disco.
“Nós crescemos ouvindo ele. É um sinal do universo indicando que estamos no caminho certo. Quem nos inspirou hoje reconhece a nossa força”, celebra Murica.
Para o MC, a colaboração representa muito mais do que um feat: é o reconhecimento de uma trajetória construída com persistência e identidade própria.
Clara Lima, Tribo da Periferia e Douglas Germano também participam
O álbum também conecta diferentes gerações e territórios da música brasileira. Em “Pato Feio”, o Puro Suco recebe o grupo brasiliense Tribo da Periferia, referência importante do rap do Distrito Federal.
Já “Lapada Seca” conta com a participação da mineira Clara Lima, enquanto Douglas Germano acrescenta referências do samba paulista às cordas e aos interlúdios do projeto.
A proposta é reunir artistas com identidades diferentes, mas conectados pela admiração e pelo respeito mútuo.
“Cada um vem com a sua identidade, mas o que os une é o respeito e o carinho mútuo. O Tribo é pioneiro; a Clara é uma artista completa; e o Douglas traz a escola do samba. Para nós, tê-los no disco é uma honra”, conta Murica.
Um som que mistura rua, literatura e música eletrônica
A construção sonora de “A Contribuição Milionária de Todos os Erros” também revela o cuidado do trio com cada detalhe. O processo reuniu a bagagem literária de Murica, a pesquisa de samples de BEATDOMK e a experiência de Peres na engenharia de mixagem e nos efeitos aplicados às vozes.
O resultado coloca lado a lado a sujeira característica do boombap e texturas eletrônicas de ritmos quebrados, como o UK garage.
“Cada um traz a sua pesquisa e o seu ingrediente pro suco”, resume Murica.
Com 12 faixas, o álbum funciona como um diário de sobrevivência, amadurecimento e expansão artística. É um trabalho que combina vulnerabilidade, experimentação e a identidade construída pelo grupo ao longo dos anos.
Quem é o Puro Suco?
Formado em Brasília, em 2017, o Puro Suco nasceu no ambiente da Batalha do Museu e se tornou um dos representantes da resistência dos grupos tradicionais no hip hop nacional.
O trio é composto pelos MCs Murica e Peres e pelo produtor musical BEATDOMK. Juntos, desenvolveram a identidade conhecida como “Rataria Popular Brasileira”, que mistura a cultura do sample e do boombap com ritmos e referências da música brasileira.
A trajetória inclui os álbuns “Rataria Popular Brasileira” (2019) e “Cacau” (2023), além de números expressivos: são mais de 20 milhões de visualizações no YouTube e centenas de milhares de ouvintes mensais nas plataformas digitais.
Outro destaque é “Melô do Amor”, que ultrapassou 18 milhões de reproduções e integrou a trilha sonora da série “Os Donos do Jogo” (2025), sucesso que chegou ao Top 1 da Netflix Brasil.
Agora, com “A Contribuição Milionária de Todos os Erros”, o Puro Suco apresenta um novo capítulo de sua história: um disco que transforma cicatrizes em repertório e reafirma a força de uma identidade construída sem pressa.
