Longa dirigido por Jefferson Mello mistura ficção e documentário para contar a história do time do Vasco campeão carioca em 1923 e ligar o passado ao racismo que ainda atravessa os estádios. A estreia é em 19 de novembro.
Uma das histórias mais marcantes do futebol brasileiro chega às telas de cinema em “Camisas Negras”, longa-metragem dirigido por Jefferson Mello. A obra recupera a trajetória da equipe do Vasco da Gama que, no início dos anos 1920, entrou para a história ao conquistar o Campeonato Carioca com um time formado majoritariamente por jogadores negros e de origem popular.
Mais do que reconstruir um episódio fundamental do esporte nacional, o filme cria uma ponte entre aquele momento e as diferentes manifestações do racismo que ainda atravessam os estádios e a sociedade. A obra nasce pioneira: é o primeiro filme a abordar e investigar o racismo no futebol com uma visão global. O longa chega aos cinemas em 19 de novembro.
Legado histórico para o esporte e contra o racismo
Nos anos 1920, o futebol no Rio de Janeiro era um ambiente elitista, restrito aos clubes da Zona Sul, que criavam mecanismos para excluir pessoas negras, operários e membros das classes populares. Na contramão desse cenário, o Vasco da Gama, clube de forte base popular e ligado à comunidade portuguesa, apostou em uma formação inclusiva e competitiva, recrutando talentos das fábricas e dos subúrbios cariocas, sem distinção de raça ou origem social.
Sob o comando do treinador uruguaio Ramón Platero e vestindo uniformes inteiramente negros, motivo pelo qual ficou conhecido como “Camisas Negras”, o time dominou a competição. O elenco eternizou nomes como Nélson no gol; Leitão e Mingote na defesa; Nicolino, Bolão e Arthur no meio-campo; e o ataque formado por Paschoal, Torterolli, Arlindo, Cecy e Negrito.
O Vasco foi campeão carioca em 12 de agosto de 1923, com uma rodada de antecedência, derrotando os grandes clubes da época, como América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense.
A Resposta Histórica de 1924
Inconformados com a vitória de um time popular e diverso, os clubes aristocráticos fundaram uma nova liga em 1924, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), e exigiram que o Vasco excluísse 12 de seus jogadores, negros e trabalhadores, sob o pretexto de que não teriam o perfil adequado para o esporte nem “valor moral”.
José Augusto Prestes, presidente do Vasco na época, recusou a exigência, desfiliou o clube da nova liga e formalizou a decisão em um documento que ficou conhecido como a Resposta Histórica de 1924. O time disputou a liga alternativa naquele mesmo ano e se tornou bicampeão invicto.
Para provar que cumpria todos os requisitos de estrutura exigidos pelas ligas, o clube e sua torcida se mobilizaram nos anos seguintes para construir o Estádio de São Januário, inaugurado em 1927 e então o maior da América do Sul. A trajetória dos “Camisas Negras” é apontada pela historiografia do clube como o marco fundador da democratização do futebol brasileiro.
Documentário e ficção: seis países de pesquisa
“Camisas Negras” combina ficção, reconstituição histórica e linguagem documental. A parte ficcional reconstitui a rotina dos atletas e o Rio de Janeiro da década de 1920, enquanto a dimensão documental amplia a discussão para o presente. Para isso, Jefferson Mello fez uma pesquisa de cerca de dois anos em seis países (Brasil, Argentina, Espanha, Itália, Polônia e Alemanha), ouvindo jornalistas, pesquisadores e acadêmicos.
Segundo o diretor, a ideia do filme “surgiu da necessidade de investigar como o racismo atravessa o tempo e permanece presente tanto no futebol quanto na vida cotidiana da população negra”.
“Por essa razão, optei por uma linguagem híbrida, combinando documentário e ficção. Esse formato me permitiu estabelecer um diálogo entre passado e presente, memória e realidade, mostrando que os acontecimentos vividos pelos Camisas Negras não pertencem apenas à história. Eles ecoam nas experiências de milhões de pessoas negras que ainda enfrentam o racismo em diferentes espaços da vida social. Ao longo da produção, percorri seis países, buscando construir uma visão global sobre o tema.”
“O objetivo era mostrar que o racismo é uma questão global. Ele não se manifesta da mesma forma em todos os países, porque cada sociedade tem uma história e uma dinâmica próprias. Por isso, foi importante ouvir pesquisadores e entender como essas estruturas aparecem em diferentes contextos”, destaca Jefferson.
Para o diretor, o filme tem a missão de levar o espectador além da arte e da paixão da torcida, rumo a uma consciência coletiva sobre o que não cabe mais na sociedade:
“Mais do que denunciar injustiças, meu objetivo foi utilizar a linguagem cinematográfica como instrumento de transformação. Acredito que o cinema possui a capacidade de gerar identificação, provocar reflexão e estimular mudanças. Nesse sentido, o filme é também uma contribuição para a luta antirracista, não apenas dentro do universo do futebol, mas em todas as dimensões da vida cotidiana do povo negro.”
Reconstituição sem inteligência artificial
A produção fez um trabalho minucioso de reconstituição do Rio dos anos 1920. Figurinos, uniformes, chuteiras, bolas e troféus foram recriados a partir de pesquisas de época, somados a efeitos visuais na pós-produção para ambientar as partidas e os cenários urbanos, sem o uso de inteligência artificial, valorizando o trabalho de arte.
O longa dá continuidade à trajetória autoral de Jefferson Mello, voltada à diáspora africana e à ancestralidade, presente em documentários como “Samba Jazz Rio e New Orleans” e “Razões Africanas” (2025).
Elenco
Juan Paiva (Cecy), Sergio Malheiros (goleiro Nelson), Bruno Mazzeo (José Augusto Prestes), Thelmo Fernandes (Raul Campos), Roberto Birindelli (Ramón Platero), Antônia Fragoso, Rodrigo Candelot (Antonio Campos), Aline Dias, Brenno Leone e Cláudio Garcia.
Ficha técnica
Título: Camisas Negras
Direção e roteiro: Jefferson Mello
Colaboração de roteiro: Daiana de Souza
Produção: Tremè Produções
Direção de fotografia: Jefferson Mello
Som: Luciano Stelzer
Montagem: Tasso Dourado, Jefferson Mello e Juliana Nicolini
Trilha sonora: Eduardo Resende
Direção de arte: Teca Ficinski
Figurino: Eliene Santana e Julia Melo
Gênero: Docu-drama
País: Brasil, 2026
Cor: P&B e colorido
Duração: 1h36min
Classificação: pendente
Estreia: 19 de novembro
Crédito da imagem: Divulgação
