Quadro que havia ajudado programa a disparar no Ibope passou a cansar o público, e emissora apelou para uma tragédia dentro da história
A Globo tomou uma decisão completamente inesperada em Os Trapalhões em 1993 para tentar recuperar a audiência do humorístico: colocou fogo na fazenda de um dos principais quadros do programa.
A estratégia foi revelada pela Folha de S.Paulo em outubro daquele ano, quando a emissora enfrentava uma nova queda nos números da atração comandada por Renato Aragão.
E o incêndio não seria apenas uma cena qualquer. A tragédia serviria para tirar personagens da história, mudar o cenário do quadro e introduzir novos nomes no elenco.
Quadro que fez audiência disparar começou a perder força
“Nos Cafundó do Brejo” havia sido criado justamente durante a grande reformulação de Os Trapalhões.
O quadro ocupava cerca de 15 minutos do programa e era protagonizado por Renato Aragão como Zé do Brejo.
Também estavam na história personagens interpretados por Cláudio Mamberti, Roberto Bomtempo, Letícia Spiller, Alessandra Aguiar e Chico Dias.
A estreia aconteceu em 25 de abril de 1993.
E, inicialmente, a estratégia funcionou muito bem.
Segundo dados do DataIbope publicados pela Folha, a audiência média de Os Trapalhões saiu de 23 pontos para 38 pontos na Grande São Paulo depois da estreia do quadro.
Em número de domicílios, isso representava um salto de aproximadamente 915 mil para 1,5 milhão de residências.
Só que a situação começou a mudar alguns meses depois.
Público começou a trocar de canal
Os bons números permaneceram até aproximadamente setembro.
Depois disso, a audiência começou a cair.
Na época da reportagem, o programa estava com média de 34 pontos, abaixo dos 38 alcançados anteriormente.
Preocupada com a situação, a Globo decidiu encomendar uma pesquisa para entender o que estava acontecendo.
A resposta encontrada pela emissora foi curiosa: o público teria se cansado justamente de “Nos Cafundó do Brejo”.
Segundo a pesquisa citada pela Folha, telespectadores mudavam de canal quando o quadro começava.
Foi aí que surgiu a solução mais dramática possível.
Globo decidiu colocar fogo na fazenda
Para reformular a história, uma bomba provocaria um incêndio na fazenda do coronel Nanico Durão.
A tragédia seria usada como uma espécie de ponto de virada.
O público não acompanharia diretamente as mortes, mas seria informado de que Nanico Durão e Pelúcio Manso morreriam durante o incêndio.
Com isso, os dois personagens seriam retirados da trama.
Mas havia uma brecha.
A própria reportagem observava que nada impediria que os personagens reaparecessem futuramente alegando que haviam sobrevivido milagrosamente à catástrofe.
Incêndio também mudaria completamente o quadro
Depois da destruição da fazenda, Zé do Brejo, Querência, Pipoca e Porco deixariam o local e seguiriam para a cidade grande.
A mudança permitiria que “Nos Cafundó do Brejo” ganhasse um novo cenário e uma nova dinâmica.
E a Globo ainda preparava outra novidade para tentar movimentar a história.
Dois novos galãs entrariam no quadro: Rômulo Arantes, como o vilão Coisa Ruim, e Marcelo Novaes, interpretando Clark Wayne, primo de Querência.
A estratégia era clara: transformar completamente o quadro que havia começado o ano como um dos responsáveis pelo crescimento de Os Trapalhões.
Globo já tinha usado catástrofe para tentar recuperar audiência
A estratégia, porém, não era exatamente inédita na televisão.
A própria Folha de S.Paulo relembrou outro caso ocorrido em 1967, quando a Globo enfrentava problemas de audiência com a novela Anastácia, a Mulher Sem Destino.
Na ocasião, a autora Janete Clair assumiu a produção e promoveu uma mudança radical na história: um furacão matou boa parte do elenco.
Décadas depois, a fórmula reaparecia, agora no humor.
Em 1993, a Globo apostava em uma explosão, um incêndio, personagens “mortos”, mudança de cenário e novos integrantes para tentar fazer Os Trapalhões voltar a conquistar o público.
Uma verdadeira catástrofe em nome do Ibope.
