Anúncio da jornalista, um ano após a perda do primeiro filho, reacende o debate sobre a complexidade de gestar após um trauma. Especialistas explicam que nova gravidez não apaga a dor anterior.

Por Jean Chambre — São Paulo

16/06/2026 14h45 — Atualizado há alguns segundos

O anúncio da nova gravidez da apresentadora e jornalista Tati Machado emocionou as redes sociais nesta semana e trouxe de volta ao debate público uma realidade crônica enfrentada por milhares de famílias anualmente: a gestação após a perda de um filho.

Em maio deste ano, completou-se um ano da morte de Rael, o bebê esperado por Tati e seu marido, Bruno Monteiro. Desde o episódio, a apresentadora passou a utilizar suas plataformas digitais para compartilhar de forma aberta e humanizada as etapas de seu processo de luto, defendendo a importância de continuar reconhecendo e validando sua maternidade mesmo diante da ausência física do filho.

Com a confirmação da nova gravidez, psicólogos e obstetras alertam para a complexidade dos sentimentos que costumam acompanhar este período. Crianças que nascem de uma gestação seguinte a um aborto espontâneo, morte fetal ou neonatal são chamadas popularmente de “bebês arco-íris”. O termo funciona como uma metáfora para a luz que surge após uma forte tempestade, mas especialistas advertem que a analogia não deve ser interpretada como um apagamento do sofrimento anterior.

A ilusão da substituição e os sentimentos ambivalentes

De acordo com a psicóloga e professora Natália Aguilar, especialista em luto e perdas, existe uma cobrança social equivocada de que a chegada de uma nova criança opere como uma "cura" automática para a tragédia passada.

"A chegada de um bebê arco-íris traz uma inegável dose de esperança para a estrutura familiar, mas esperança não significa a ausência de dor. Na prática clínica, observamos que a alegria caminha lado a lado com a saudade, a memória e o amor inalterado que continuam existindo pelo filho que morreu", explica Natália.

Essa dinâmica psicológica faz com que a nova gestação seja profundamente marcada por sentimentos ambivalentes. O entusiasmo da notícia coexiste com picos de ansiedade, insegurança e medo de um novo desfecho traumático.

Como mecanismo de autodefesa e proteção emocional, é comum que muitas mulheres adotem comportamentos preventivos que destoam da gestação idealizada pelo senso comum. Algumas adiam a compra do enxoval, evitam planejar a decoração do quarto ou optam por não compartilhar a novidade com amigos e parentes durante os primeiros meses. Há também relatos frequentes de estresse agudo antes da realização de consultas de rotina e exames de ultrassonografia.

"Mães e pais nessa situação podem apresentar uma dificuldade inicial para estabelecer um vínculo afetivo imediato com o feto. Isso não deve ser lido como rejeição ou falta de amor, mas sim como uma tentativa inconsciente de blindagem contra uma dor que eles já conhecem de perto", aponta a psicóloga.

O amor não se divide: como apoiar a família

Um dos principais erros cometidos por redes de apoio (amigos e familiares) envolve a verbalização de frases clichês que, embora tenham intenção positiva, tendem a invalidar o histórico da mãe. Expressões como "agora você vai esquecer o que passou" ou "esse bebê veio para compensar a perda" são apontadas por especialistas como geradoras de culpa e sofrimento adicional.

A psicologia perinatal enfatiza que um filho jamais substitui o outro. O amor materno e paterno não se divide, mas se multiplica em canais distintos. O vínculo com o bebê que partiu permanece fixo na árvore genealógica e na memória afetiva da casa, enquanto um relacionamento completamente novo, com uma história e individualidade próprias, começa a ser pavimentado com a nova criança.

Para a comunidade médica, a repercussão e a coragem de Tati Machado ao expor sua trajetória desempenham um papel pedagógico fundamental na quebra de tabus. Ao dar visibilidade ao luto perinatal, a jornalista ajuda a legitimar o direito das mães de acolherem a expectativa do futuro sem precisar sepultar o respeito e a memória pelo passado.