Em 1993, emissora planejou uma reformulação radical para o humorístico, mas Didi não aceitou ficar sozinho em parte do programa e decidiu negociar com a direção
Uma mudança planejada pela Globo para Os Trapalhões em 1993 quase alterou completamente a dinâmica de um dos maiores grupos de humor da televisão brasileira. Renato Aragão não aceitou a ideia de se separar de Dedé Santana e Mussum e precisou negociar diretamente com a direção da emissora.
A história foi revelada em reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo e por O Globo naquele ano, durante a preparação para a nova temporada do programa.
Globo queria separar Renato dos companheiros
Naquele momento, a emissora tentava dar uma nova cara a Os Trapalhões, que vinha enfrentando uma queda de audiência.
O programa passou a ser dirigido por José Lavigne, conhecido pelo trabalho em TV Pirata, e a ideia era aproximar o humorístico de uma linguagem mais moderna, com esquetes curtos, edição acelerada e efeitos eletrônicos.
Mas havia uma mudança muito mais profunda planejada.
A Globo queria dividir o programa em duas partes. Na primeira, estariam os tradicionais esquetes com Didi, Dedé e Mussum. Na segunda, Renato Aragão protagonizaria sozinho uma pequena comédia de costumes escrita pelo autor Carlos Lombardi.
O personagem de Renato seria ainda mais diferente: ele interpretaria dois irmãos gêmeos, um pobre e outro rico.
O problema é que Dedé e Mussum não teriam participação nessa parte da atração.
Didi não gostou da ideia
Renato Aragão não aceitou a proposta de se tornar protagonista isolado.
Segundo a Folha de S.Paulo, o humorista teria resumido sua posição de maneira direta: “só sei ser o Didi”.
Para Renato, o personagem não fazia sentido sem seus companheiros.
A proposta também teria causado desconforto dentro do próprio grupo, especialmente em Dedé Santana.
Na época, Dedé ainda estava afastado das gravações enquanto se recuperava de um princípio de infarto.
Renato foi conversar com Boni
A resistência de Aragão chegou até José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então vice-presidente de Operações da Globo.
Em entrevista publicada por O Globo, Renato explicou que não era contra a emissora buscar novidades, mas queria que a reformulação preservasse a união dos Trapalhões.
O humorista contou que ele próprio havia pedido mudanças no programa, mas não queria que isso significasse sua separação dos demais integrantes.
A negociação acabou funcionando.
A ideia de colocar Renato sozinho na segunda metade do programa foi modificada, e a Globo encontrou outro caminho para renovar a atração.
Os Trapalhões ganharam uma cara completamente diferente
A versão de 1993 estreou em 18 de abril, às 18h30, sob o comando de José Lavigne.
O formato passou a apostar em esquetes de aproximadamente quatro minutos, vários personagens, efeitos eletrônicos e uma estética inspirada justamente em programas como TV Pirata e Casseta & Planeta, Urgente!.
A produção também abandonou a tradicional claque paga, que era responsável pelas risadas durante as gravações.
Renato Aragão chegou a estranhar o silêncio no estúdio.
Depois, porém, passou a defender a mudança, comparando o novo método ao cinema.
Até Letícia Spiller entrou na história
A nova fase ainda trouxe nomes que posteriormente se tornariam bastante conhecidos.
Entre os novos integrantes estava Letícia Spiller, então ex-paquita, que interpretava Querência na comédia de situação protagonizada por Renato.
O personagem de Aragão era Zé do Brejo, um roceiro perseguido pelo coronel Nanico Durão e seu capataz.
A trama ainda tinha uma casa em cima de uma árvore cujos frutos eram comidas como pizza, cachorro-quente, hambúrguer, queijo quente e batata frita.
Era o chamado “surrealismo” que Renato Aragão descrevia ao falar da nova proposta.
Renato ainda queria os últimos minutos do programa
Mesmo depois de conseguir preservar a presença dos companheiros, Renato ainda tinha outra reivindicação.
Ele queria que os dois minutos finais do programa fossem utilizados para apresentar ações voltadas às crianças.
Na época, o humorista era embaixador do UNICEF no Brasil e pretendia usar o espaço para mostrar iniciativas realizadas no país em benefício do público infantil.
A reformulação de 1993, portanto, acabou sendo muito maior do que uma simples mudança de cenário ou de formato.
Foi uma tentativa da Globo de modernizar Os Trapalhões em um momento delicado — e também um episódio em que Renato Aragão deixou claro que, para ele, Didi não existia separado de Dedé e Mussum.
