Morre aos 85 anos artista que marcou o Fantástico e teve ligação surpreendente com filme famoso


Morre Juarez Machado, artista que marcou o Fantástico e teve obras ligadas a filme que conquistou o mundo

Artista catarinense estava internado no Rio de Janeiro e sofreu uma parada cardíaca; ele deixa três filhos

O Brasil perdeu nesta terça-feira (6) um de seus nomes mais marcantes das artes. Juarez Machado morreu aos 85 anos, após sofrer uma parada cardíaca enquanto estava internado em Vassouras, no Rio de Janeiro. O artista havia sido hospitalizado desde a última terça-feira (29), em decorrência de uma pneumonia.

Conhecido por transitar entre a pintura, escultura, desenho, caricatura, cenografia, literatura e televisão, Juarez construiu uma carreira que ultrapassou as fronteiras brasileiras e deixou uma marca especial também na televisão.

A morte do artista causa comoção especialmente em sua cidade natal, Joinville (SC). A prefeitura decretou luto oficial de três dias. O Instituto Internacional Juarez Machado, criado pelo próprio artista ao lado do irmão Edson Machado, também divulgou uma nota de pesar e permanecerá fechado até 9 de outubro.

Artista ficou conhecido pelo Fantástico

Um dos capítulos mais curiosos da trajetória de Juarez Machado aconteceu justamente na televisão.

Em 1973, ele participou da equipe responsável pela criação do Fantástico, da Globo, trabalhando como cenógrafo e ajudando a desenvolver cenários e efeitos para apresentações musicais de grandes nomes da música brasileira, como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago.

No ano seguinte, Juarez acabou assumindo um espaço no programa que originalmente seria ocupado por Chico Anysio, que estava doente.

A solução encontrada pelo artista acabou se transformando em um dos trabalhos mais lembrados de sua carreira.

Com o rosto pintado de branco, uma fantasia e sem dizer uma palavra, ele interagia com os próprios desenhos em um quadro de humor baseado no nonsense. A ideia fez sucesso e Juarez passou a ser conhecido nacionalmente como o “mímico” do Fantástico.

Uma carreira que começou ainda na infância

O talento de Juarez Machado apareceu muito cedo.

Nascido em Joinville, em 16 de março, ele era filho de João de Oliveira Machado e Leonora Busch Machado. Ainda criança, já demonstrava uma criatividade incomum.

Aos apenas três anos de idade, fez aquele que seria considerado seu primeiro desenho registrado: um tanque de guerra desenhado em uma página de jornal que noticiava a Segunda Guerra Mundial.

O desenho foi preservado pela mãe e atualmente faz parte do acervo do Instituto Internacional Juarez Machado.

Na adolescência, trabalhou como ilustrador de um laboratório farmacêutico e também foi convocado para prestar serviço militar, onde atuou na produção artística de painéis do Batalhão de Infantaria.

Depois de um ano no Exército, mudou-se para Curitiba para estudar na Faculdade de Belas Artes. Foi lá que começou a trabalhar na televisão, como cenografista da TV Paraná.

Ainda jovem, colecionou prêmios em exposições de pintura, desenho e escultura.

Juarez enfrentou a censura durante a ditadura

Depois de se formar, o artista mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a conviver com alguns dos maiores nomes do humor e da imprensa brasileira.

Juarez se aproximou de artistas como Ziraldo, Jaguar e Millôr Fernandes, trabalhando em publicações importantes.

Durante a ditadura militar, também encontrou maneiras criativas de driblar a censura com trabalhos publicados em veículos como O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Desfile, Ele e Ela, O Pasquim e Jornal do Brasil.

Seu humor ácido e seu estilo visual fizeram com que rapidamente conquistasse espaço entre os grandes ilustradores brasileiros.

Obra de Juarez foi parar em filme famoso de Hollywood

Talvez uma das histórias mais surpreendentes da carreira de Juarez Machado tenha acontecido muitos anos depois de sua consagração no Brasil.

Em 1986, o artista decidiu deixar o país e encontrou em Montmartre, em Paris, o lugar onde viveria uma nova fase de sua trajetória.

Sua produção artística passou a ganhar cada vez mais espaço internacional, chegando a países como Estados Unidos, Portugal, Itália, Japão, Uruguai, Suíça, Líbano, Bélgica e Austrália.

Foi justamente em uma exposição em Paris que suas obras chamaram a atenção do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet.

O diretor estava procurando referências visuais para um novo filme e encontrou nas pinturas de Juarez Machado as cores e a estética que buscava.

O filme era “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, produção que se tornou um fenômeno mundial.

Jeunet chegou a fotografar obras, livros e outros trabalhos do brasileiro para apresentar à equipe de produção. E a ligação não ficou apenas na inspiração: duas obras de Juarez Machado aparecem no quarto da personagem Amélie no filme.

Mais tarde, o artista também colaborou com o cineasta em Eterno Amor, novamente com Audrey Tautou no elenco.

Juarez fez história também na literatura infantil

Além das artes plásticas e da televisão, Juarez Machado também foi responsável por uma inovação na literatura brasileira.

Em 1975, publicou “Ida e Volta”, considerada a primeira obra brasileira construída com uma narrativa formada exclusivamente por ilustrações.

A ideia transformou o livro em uma experiência visual, sem depender de textos tradicionais para contar a história.

O artista também lançou outras obras seguindo essa proposta, como Domingo de Manhã, Limite, Saída e Emoções.

Artista nunca esqueceu Joinville

Apesar de construir uma carreira internacional e passar décadas vivendo entre diferentes países, Juarez Machado manteve uma forte ligação com Joinville.

Em 2014, realizou uma promessa que havia feito a si mesmo aos 19 anos: voltar à cidade onde nasceu e criar um espaço dedicado às artes.

O resultado foi o Instituto Internacional Juarez Machado, construído no terreno onde ficava a antiga casa de seus pais.

O espaço conta com galerias e uma biblioteca dedicada às artes, além de receber exposições de artistas locais, brasileiros e estrangeiros.

Juarez também empresta seu nome a um dos teatros do Centreventos Cau Hansen, inaugurado em 2001.

No local estão duas obras doadas pelo artista à cidade: o Autorretrato, uma escultura em bronze, e Uma história de amor em Joinville, uma grande tela dedicada ao universo teatral e à própria cidade.

O legado que fica

Juarez Machado deixa três filhos e uma trajetória marcada pela capacidade de transformar diferentes linguagens em arte.

Da televisão às galerias, dos jornais aos livros, do Brasil a Paris, seu trabalho atravessou gerações e alcançou públicos muito diferentes.

Para Joinville, porém, o legado vai além das obras.

O artista ajudou a colocar sua cidade natal no mapa da produção cultural brasileira e deixou para as próximas gerações um espaço dedicado justamente àquilo que guiou sua própria vida: a arte.

Juarez Machado morreu aos 85 anos, mas seu trabalho permanece espalhado por museus, livros, telas, teatros e também na memória de quem cresceu vendo aquele personagem silencioso e de rosto branco no Fantástico.