"A única herança que ela me deixou": O relato emocionado de Paulo Serdan sobre a mãe vítima de violência doméstica


Em um vídeo publicado recentemente, Paulo Serdan, figura conhecida da Mancha Verde, fez um relato forte e emocionado. Revoltado com declarações recentes de uma deputada, e de outras mulheres sobre a questão do feminicídio e as penas aplicadas a esse crime, Serdan expôs lembranças dolorosas de sua infância para criticar a postura dessas comentaristas.

​Transcrição Completa do Relato de Paulo Serdan

​Bom. Vamos lá.

​É, tá num assunto aí, muita gente não vai gostar, mas tô nem aí.

​Seguinte: ontem eu vi o depoimento de uma das âncoras da BandNews, Adriana Araújo, sobre a menina lá que foi eleita deputada, que é vereadora lá da Praia Grande, né? E quando saiu os números dela, nem sabia quem era ela, né? Depois que eu vi quem era e, e aí eu vi um, veio na cabeça, um vídeo ou dois que eu tinha visto dela lá atrás, e achei escroto pra caramba falar dela, e, graças a Deus, nunca mais o Instagram me entregou nada dela.

​É, e de ontem para hoje, cara, eu vi vários vídeos dela, vários. E eu vejo pessoas tentando, principalmente mulheres, né? E eu vi um vídeo dela com uma outra mulher, e elas dizendo que o feminicídio não existe, elas defendendo uma situação de que, é, a pena para o homicídio normal é uma, e para o feminicídio ela dobra. E elas acham que isso é errado, que as mulheres são privilegiadas. Eu ouvi isso da boca dela e da outra cidadã, falando isso.

​Não, mano.

​Cara, aí eu, é, entendo e, e não consigo me colocar no lugar da Adriana ontem, porque eu não sou mulher, mas eu respeito a voz embargada dela, caramba, porque eu cheguei em casa agora, né, cansado, comi um arroz com ovo lá embaixo, aí tomei um banho, saí do, do, do banheiro aqui, e eu vi a única herança que a minha mãe me deixou. Não sei se dá para vocês verem, tão vendo ali, ó? Um quadro, aqueles quadros, até o dois, né? Aqueles quadros antigos, tão vendo ali, ó? Tem um ali e o outro aqui na ponta aqui, ó, né? Outro ali na ponta. É, aqueles quadros lá dos anos 60, né, encostado em cima de um, de um bichinho, caramba, ou eles juntavam as fotos do seu rosto, né? Foi a herança que a minha mãe me deixou.

​É, cara, sinceramente, é, eu espero que um dia ela encontram, encontre um macho que mostre para ela o verdadeiro sentido da Lei Maria da Penha. Eu digo isso por quê?

​Eu vi, eu vivi isso. Eu vi a minha mãe ser espancada. Não é discussão de casal. Eu via minha mãe ser espancada, espancada de verdade. Muito, muito.

​Minha mãe, queimada com ferro, de açafrão. A gente tinha uma, um veículo, a gente morava na Vila Maria, bendivida, tinha sete anos de idade. Tinha Landau na garagem da casa da minha casa. É, na Copa de 74, a minhas professoras foram assistir jogos em casa, porque tinha TV a cores, que era um, até nem, nem lembro se era um negócio que tinha na frente da TV, mas era pica.

​Eu vivi isso. Eu vi o sofrimento de uma mulher. Eu vi o que a minha mãe sofreu. Eu vi o que a minha mãe suportou. Eu vi o que a minha mãe aguentou.

​E sabe quando minha mãe separou? Minha mãe separou quando eu não tinha feito a lição de casa, eu tinha perdido a cartilha, aquela cartilha Caminho Suave, vem um bilhete da escola, ele colocou um revólver na minha cabeça, pediu pra empregada ir comprar a cartilha, e nesse dia, ao invés de ela me deixar na escola, eu pedi pra ela me deixar na casa da minha madrinha que era ali perto. A escola era na Guilherme Cotching. E aí, nesse dia, quando ela, a, a, a empregada contou pra minha mãe, a minha mãe se separou, ou seja, todo o sofrimento que ela teve enquanto era com ela, ela suportou. A partir do momento que passou para mim, ela abandonou uma vida que, na teoria, era uma vida boa, né? Na teoria, era uma vida que não faltava as coisas pra gente, pra eu, pra minha irmã, pra ela, né?

​A gente foi morar na casa dos meus avós lá no Pari, ficou pouco tempo, porque essas coisas nunca dão certo, né? E aí a gente foi morar num quartinho de madeira em frente ao distrital da Mooca, na Rua Tatuari, hoje tem a faculdade lá do lado, mas é, a lanchonete existe ainda na esquina, a lanchonete moderna, naquela época era escrachada, era em 77, né? E era um centro de Umbanda na frente, era no na parte de cima, era um centro de Umbanda na frente e atrás, eles cederam um quartinho de madeira, um cercadinho, aonde a gente morava os três. Minha mãe fazia comida na espiriteira, lavava a roupa no banheiro, que tinha uma banheira, e assim a gente viveu, até ela arrumar dois empregos, em 78, a gente mudar para uma kitnet lá no centro, né?

​Então é assim, a minha mãe foi a mulher mais foda que eu conheci na minha vida, mulher mais foda que eu conheci na minha vida. Trabalhou para caralho para criar eu e a minha irmã. Me ajudou para caralho em todas as coisas que eu pensava, nas loucuras que eu tinha, né? Morreu, praticamente fazendo fantasias para nossa escola.

​Ver a voz da Adriana ontem, embargada, ela falando a respeito dessa menina, me levou aos meus sete anos de idade. Vendo os vídeos escrotos dela hoje, me deu nojo, me deu ódio, né? Saindo do banho agora e vendo aquelas fotos, que foi a herança que a minha mãe me deixou, e tá tudo certo, minha mãe, porque eu amo a senhora e tudo o que a senhora fez por mim, pela minha irmã, por tantos amigos que eu tive, que eu tenho, tá tudo certo.

​Vê essa escrota falar dessa forma, eu tenho uma filha mulher. E a única coisa que eu sempre digo para quem namora com ela: não coloca a mão, não coloca a mão, porque eu mato. Eu vou atrás e eu mato.

​Eu procurei meu pai, quando eu tinha 14, 15 anos de idade, eu procurei, na minha inocência, eu procurei com 15, 16, 17, treinei na academia dele e tudo mais. E quando eu tive meus filhos, aniversário dos meus filhos, eu quis aproximar, levar ele no mesmo ambiente da minha mãe e tudo mais, e nunca nem me passou pela cabeça nada de que eu pudesse estar, eh, magoando ela. A primeira vez tudo bem, a segunda, mais ou menos, na terceira, a minha mãe virou e falou: "Filho, não dá para mim".

​E um dia eu sentei com ela para conversar, cara. E eu pedi perdão e me senti mal para caralho, porque eu não tinha noção do mal que eu estava fazendo para ela, né?

​Então, ô Chiquinha da Shopee, sua escrota, você não tem noção das merdas que você fala. Você não tem noção da escrotice que sai da sua boca. E eu lamento muito em saber que nesses quase dois milhões de votos, muitas mulheres votaram nela. Muitas. Talvez porque vocês não tenham a noção do que é ser espancada, agredida por um homem cruel.

​Mas quem sabe um dia vocês passem por isso, e aí vocês vão entender, né? A batalha dessas mulheres, uma mulher que naquela época, eu com sete anos de idade, minha irmã, sei lá, com três, mulher desquitada era tida como puta, mulher que fumava era tida como vagabunda, e mulher que bebia, então... E hoje, a gente tá nos bares, nas baladas, vê grupos de quatro, cinco, 10 mulheres sozinhas bebendo. Triste.

​Vocês, um dia, você, escrota, com 2 milhões de votos, um dia você vai pagar pela sua língua. É isso.