Ator japonês deu vida ao herói de tokusatsu que revolucionou a televisão brasileira no final dos anos 1980, rivalizou com a TV Globo e movimentou milhões de dólares no mercado de licenciamentos.
Por Jean Chambre — São Paulo
02/07/2026 15h05 — Atualizado há alguns segundos
O universo da cultura pop e a geração que cresceu diante da televisão nas décadas de 1980 e 1990 receberam com pesar uma notícia vinda do Japão. O ator Hikaru Kurosaki, mundialmente conhecido por interpretar o herói de armadura metalizada na série “O Fantástico Jaspion”, faleceu aos 64 anos. A informação foi confirmada pelo portal de notícias japonês ZakII (vinculado ao grupo de mídia Sankei).
De acordo com a publicação oficial, a notícia foi compartilhada inicialmente na rede social Facebook por um colega de Kurosaki na Associação de Mergulho da cidade de Motobu, localizada na província litorânea de Okinawa, onde o ex-ator residia e atuava como instrutor após ter se afastado dos estúdios de cinema de Tóquio.
No Brasil, a notícia provocou uma onda imediata de homenagens e comoção digital. Jaspion não foi apenas mais uma atração infanto-juvenil na grade de programação do país: o herói japonês foi a espinha dorsal de uma revolução cultural no mercado de TV aberta, estabelecendo as bases de um ecossistema de licenciamentos que transformou hábitos de consumo de milhões de crianças brasileiras.
1988: A invasão tecnológica na TV Manchete
A história de Jaspion no território brasileiro teve início estratégico em 22 de fevereiro de 1988. Importado de forma pioneira pelo empresário Toshihiko Egashira, da distribuidora Everest Vídeo, o seriado de tokusatsu (produção de efeitos especiais com atores reais) estreou dentro do programa Clube da Criança, apresentado pela então jovem revelação Angélica na extinta Rede Manchete.
O impacto foi imediato e operou um choque de modernidade em uma era dominada por animações artesanais americanas e brasileiras. Conforme relatam reportagens da imprensa daquela época, a meta da Manchete era "sair da era artesanal e entrar na tecnológica". Em vez de desenhos planos como Biquinho ou He-Man, a garotada foi impactada por uma fantasia de carne e osso regida por artes marciais, raios laser e uma trilha sonora vibrante.
O enredo, que mostrava o órfão Jaspion sendo criado pelo profeta galáctico Edin para cruzar o universo a bordo da nave-robô Daileon e combater o vilão Satan Goss — cujo visual era taticamente inspirado em Darth Vader, de Guerra nas Estrelas —, cativou a audiência. Rapazes e moças passaram a imitar os golpes de karatê e taekwondo do herói pelas ruas, acompanhados de sonoros e característicos ruídos de "raios laser".
O fenômeno comercial e a briga pelo Ibope
Rapidamente, o que era uma aposta de programação converteu-se em uma "mania nacional". Em 1989, reportagens de economia documentavam que os seriados japoneses liderados por Jaspion roubavam de forma massiva a audiência do consolidado Xou da Xuxa e das novelas da TV Globo, chegando a registrar picos históricos de 13 pontos no Ibope no horário nobre das 18h no Rio de Janeiro.
O mercado de consumo varejista foi engolido pela jaspionmania. Para além das fitas de vídeo que acumulavam reservas infinitas nas locadoras de bairro, o comércio de brinquedos registrou números astronômicos para a realidade financeira da época:
Fantasias de Carnaval: A rede de lojas de departamento Mesbla vendeu 50 mil fantasias oficiais de Jaspion e Changeman no Natal de 1988 e dobrou sua encomenda para 100 mil unidades para o Carnaval de 1989;
Mercado Fonográfico: O disco oficial com as canções originais japonesas da série rompeu a barreira das 240 mil cópias vendidas no país;
Engajamento: Os fãs-clubes oficiais estruturados pela Everest Vídeo chegaram a computar mais de 12 mil sócios cadastrados em poucos meses, gerando uma receita de licenciamentos que ultrapassava a marca de US$ 1 milhão.
Especialistas e psicólogos de 1989 explicavam que o sucesso estrondoso residia no fato de os episódios materializarem os conflitos clássicos do "Bem contra o Mal" através de monstros bizarros e irreais. Essa fantasia permitia às crianças lidarem com seus próprios medos de forma lúdica. Além disso, a repetição ritualística das sequências de luta trazia um senso de organização e estabilidade reconfortante para os lares modernos.
O legado imortal na TV e no cinema
Embora contasse com apenas 46 episódios originais produzidos pela gigante japonesa Toei Company entre 1985 e 1986, a série foi reprisada exaustivamente no Brasil ao longo dos anos 1990 e 2000, passando por canais como Record, Gazeta, Rede Brasil e Band.
Em março de 2020, em meio aos primeiros meses de isolamento social da pandemia de Covid-19, a Band recolocou o clássico nas manhãs de domingo. O retorno de Jaspion e Jiraiya causou um sobressalto imediato no Ibope da emissora, elevando a audiência do horário em mais de 150% e fazendo o canal estender o tempo de exibição do bloco devido ao tráfego massivo de telespectadores nostálgicos.
O legado de Hikaru Kurosaki permaneceu tão aceso que sua imagem chegou a lotar os auditórios principais da Comic Con Experience (CCXP) em edições passadas, servindo de base para o desenvolvimento de um projeto de filme nacional adaptado para as ruas de São Paulo, gerido pela Sato Company. Com sua partida, o eterno "Tarzan Galáctico" deixa seu nome cravado na história da televisão brasileira como o rosto que traduziu, com giros e espadas laser, a era de ouro da fantasia oriental no Ocidente.
