Do desenho do Pica-Pau para a Copa: especialista explica origem da famosa 'torta escocesa' e ensina a 'abrasileirar' receita

 


Eternizada na animação que marcou gerações na TV brasileira, a sobremesa existe de verdade e é uma variação do 'millionaire shortbread'. Veja como preparar para assistir ao jogo.

Por Jean Chambre — São Paulo

23/06/2026 17h29 — Atualizado há alguns segundos

O decisivo confronto entre Brasil e Escócia nos gramados dos Estados Unidos promete paralisar o país nesta quarta-feira (24). Contudo, para além das estratégias táticas de campo, a partida reacendeu no imaginário dos torcedores brasileiros uma curiosidade que atravessa gerações na cultura pop: a famosa torta escocesa amanteigada, iguaria que deixava o clássico personagem de desenho animado Pica-Pau em estado de transe e hipnose nas telas da TV devido ao seu aroma inconfundível.

Para a surpresa de muitos que acreditavam que o prato se limitava ao universo da ficção e dos cartuns, a sobremesa é real e possui raízes profundas no Reino Unido.

Segundo Katia Yoshihara, professora do curso de Gastronomia e especialista em confeitaria e panificação da Estácio, o doce que ganhou fama no Brasil sob o nome traduzido de "torta escocesa" é, na verdade, uma adaptação direta do tradicional caramel shortcake — popularmente conhecido na Europa como millionaire shortbread (o "biscoito do milionário").

"A estrutura física da sobremesa é dividida em três camadas texturizadas e lembra muito a engenharia de um famoso chocolate comercial vendido nos supermercados, o Twix. Ela é composta por uma base de massa crocante e amanteigada feita com cacau, uma camada intermediária de caramelo cremoso denso e, por fim, uma cobertura rígida de chocolate. Na hora de servir, a tradição britânica dita que ela seja cortada em pequenos retângulos", detalha a especialista da Estácio.

Como 'abrasileirar' a receita para o jogo da Seleção

Para os torcedores que desejam colocar a mão na massa e preparar o doce temático para saborear durante os 90 minutos da partida, a chef e professora sugere uma engenharia de ingredientes nacionais que substitui os insumos importados, reduzindo o custo de produção e trazendo identidade tropical ao prato:

  • Na Massa: Substituir parte da farinha de trigo tradicional por farinha de castanhas brasileiras (como castanha-do-pará ou de caju), o que garante maior crocância e um aroma amendoado.

  • No Caramelo: Saborizar o caramelo amanteigado com raspas de cumaru, semente amazônica amplamente consagrada na alta gastronomia internacional como a "baunilha brasileira".

  • Na Cobertura: Utilizar chocolates com cacau de origem nacional (produzidos nas regiões da Bahia ou do Pará) para equilibrar o dulçor e selar a sobremesa.

A tradição das tortas salgadas nos estádios britânicos

Se o lado doce da Escócia ficou famoso na televisão, o lado salgado é o verdadeiro combustível dos torcedores nos estádios de futebol do Reino Unido. A cultura gastronômica britânica é fortemente ancorada em tortas de massa pesada e recheios robustos à base de carnes e cervejas, consumidas quentes diretamente nas arquibancadas.

Entre as principais referências que ajudam a contar a história alimentar da região e que servem de inspiração para petiscos de Copa do Mundo, destacam-se:

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|               GUIA DE TORTAS TRADICIONAIS BRITÂNICAS              |
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| Scotch Pie         | Clássico dos estádios, feita com massa fina  |
|                    | e recheio de carne moída de cordeiro.        |
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| Steak and Ale Pie  | Torta robusta de cubos de carne bovina       |
|                    | cozidos lentamente em molho de cerveja preta.|
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| Shepherd’s Pie     | O famoso "escondidinho": carne de carneiro   |
|                    | picada e coberta por purê de batatas gratinado|
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| Cornish Pasty      | Pastel de forno folhado recheado de carne e  |
|                    | batatas, herança dos antigos mineiros.       |
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Para quem deseja montar um cardápio de fusão cultural na hora do jogo, Katia Yoshihara sugere adaptar as tradicionais mini Scotch Pies recheando-as com a nossa popular carne louca desfiada, ou servir porções de fish and chips (peixe frito com batatas) acompanhadas de molho tártaro e scones (pãezinhos britânicos) com geleia de cambuci.

"Mas, no fim das contas, a engenharia do torcedor brasileiro é fiel às suas próprias tradições de Copa. O churrasco na brasa, os salgadinhos fritos, a pipoca de panela e uma cerveja artesanal bem gelada continuam sendo os grandes e imbatíveis protagonistas na hora de soltar o grito de gol", conclui a professora.