SBT erra ao perder Mauro Lissoni, mas acerta em cheio ao trazer Murilo Fraga de volta

O SBT vive mais um momento de reformulação interna — e, como costuma acontecer nesses casos, decisões acertadas e questionáveis caminham lado a lado. A recente saída de Mauro Lissoni escancara isso: ao mesmo tempo em que a emissora se despede de um dos seus profissionais mais experientes, celebra o retorno de um nome fundamental para sua história, Murilo Fraga.

Mauro Lissoni não era apenas mais um executivo. Sua trajetória, como mostra a própria imagem de seu perfil profissional, atravessa décadas e momentos emblemáticos da televisão brasileira. Ele esteve presente em fases icônicas do SBT, contribuindo direta ou indiretamente para produtos que marcaram gerações, como Casa dos Artistas, Show do Milhão, Topa Tudo por Dinheiro e o Domingo Legal na era de Gugu Liberato.

Além disso, Lissoni teve papel estratégico em decisões que ajudaram a moldar a identidade da programação. Um exemplo clássico foi o uso inteligente de Chaves na grade. Sob sua influência, o seriado mexicano deixou de ser apenas reprise e passou a ser um verdadeiro “coringa” de programação — encaixado em horários estratégicos para segurar audiência e reagir à concorrência. Não à toa, entre 2011 e 2012, a atração chegou a registrar picos de até 13 pontos nas tardes, impulsionada inclusive pelo resgate de episódios raros.ou seja , a série já estava consolidada ali.

Mais recentemente, Mauro também esteve por trás de movimentos importantes, como a retomada do Viva a Noite, mostrando que ainda tinha fôlego e leitura de público. Por tudo isso, sua saída soa não apenas como uma mudança, mas como uma perda difícil de justificar. Era um profissional que “vestia a camisa” e conhecia profundamente o DNA da emissora.

Por outro lado, o retorno de Murilo Fraga é, sem exagero, um acerto estratégico de peso. Também um nome histórico do SBT, Fraga foi peça-chave em um dos momentos mais importantes da emissora: a retomada da vice-liderança de audiência após o avanço da concorrência no fim dos anos 2000.

A partir de 2008, ao lado de Fernando Pelegio, Murilo ajudou a reposicionar o SBT com decisões que tiveram impacto direto na audiência e na percepção do público. Foi nesse período que a emissora trouxe de volta Raul Gil, consolidou a chegada de Eliana e fortaleceu sua linha de shows — que passou a alcançar frequentemente dois dígitos com atrações como Cante Se Puder e A Praça é Nossa.

Mas talvez o maior símbolo dessa fase tenha sido o investimento no público infantil e familiar. Produções como Carrossel e Chiquititas se transformaram em fenômenos de audiência e comerciais, recolocando o SBT em posição competitiva e resgatando uma característica histórica da emissora: falar diretamente com a família brasileira.

Diante desse cenário, fica a sensação de que o movimento poderia ter sido ainda mais forte — e mais inteligente. Mauro Lissoni e Murilo Fraga representam duas gerações de direção com profundo conhecimento do SBT e histórico comprovado de acertos. Juntos, poderiam formar uma dobradinha poderosa, equilibrando tradição, estratégia e renovação.

No fim das contas, o SBT acerta ao trazer de volta um nome que já provou seu valor em momentos decisivos. Mas erra ao abrir mão de outro que também fez — e ainda poderia fazer — diferença. Em um mercado cada vez mais competitivo, talvez o maior luxo seja justamente saber manter talentos que conhecem, como poucos, o caminho para o sucesso.