Curta brasileiro “Laser-Gato” leva cineasta paulistano ao Festival de Cannes

 

O cineasta paulistano Lucas Acher, de 30 anos, foi selecionado para a La Cinef, mostra oficial de novos talentos do Festival de Cannes, com o curta-metragem “Laser-Gato”. Na edição de 2026, o filme é o único representante brasileiro na categoria, que reúne apenas 16 produções escolhidas entre 2.750 inscrições de escolas de cinema de todo o mundo.

A presença na seleção posiciona Acher entre uma nova geração de cineastas acompanhados de perto pela indústria internacional. Mais do que uma vitrine, a La Cinef é historicamente reconhecida como um espaço de descoberta de novos autores que, posteriormente, passam a ocupar o circuito global do cinema.

“É estranho, porque é um filme muito íntimo, feito sob constante dúvida, e de repente ele está nesse lugar gigante”, afirmou o diretor ao comentar a seleção.

Narrativa urbana e experiência sensorial

“Laser-Gato” se desenvolve a partir de uma deriva noturna por São Paulo, acompanhando um adolescente que atravessa bairros do centro em uma sequência de encontros que transformam sua percepção da cidade. A narrativa foge de estruturas clássicas e aposta em um formato fragmentado, onde o percurso se sobrepõe à resolução tradicional.

A cidade assume papel central na construção estética do filme. Elementos como arquitetura, iluminação artificial e os sons da madrugada integram a mise-en-scène, criando um ambiente que influencia diretamente o ritmo e a tensão narrativa.

A trilha sonora segue essa proposta, priorizando uma composição sensorial baseada em ruídos urbanos, silêncios e intervenções pontuais, ampliando a sensação de estranhamento e imersão.

Estética, linguagem e reconhecimento internacional

Visualmente, o curta trabalha com contrastes — luz e sombra, movimento e suspensão — para construir uma atmosfera que transita entre o real e o absurdo, sem romper totalmente com o cotidiano. O resultado é um cinema que privilegia a experiência sensorial e a observação, em vez de explicações diretas.

Filmado em São Paulo com orçamento enxuto, o projeto transforma limitações de produção em escolhas estéticas, utilizando locações reais e valorizando o tempo e o espaço como elementos narrativos.

A seleção em Cannes marca um ponto de virada na carreira do diretor, que já passa a desenvolver projetos com potencial de coprodução internacional, mantendo São Paulo como eixo criativo.

Próximos passos e expectativa

Com uma taxa de aceitação inferior a 1%, a La Cinef reúne produções que apontam caminhos para o cinema contemporâneo. O anúncio dos vencedores da categoria está previsto para o dia 21 de maio.

Para Lucas Acher, o reconhecimento amplia o alcance de seu trabalho, mas não altera sua proposta central: explorar novas formas de narrativa e investigar atmosferas que traduzam a complexidade urbana.

O resultado é um projeto que não apenas representa o Brasil em um dos festivais mais importantes do mundo, mas também reforça o potencial do cinema nacional em dialogar com o público global sem abrir mão de sua identidade local.