Teve final de campeonato? Não. Teve show internacional? Também não. Foi “só” o último capítulo de Avenida Brasil — e o Rio de Janeiro simplesmente apertou o pause na própria rotina.
Na noite de 19 de outubro de 2012, a exibição do desfecho da saga de Nina e Carminha, escrita por João Emanuel Carneiro e exibida pela TV Globo, alterou o trânsito, esvaziou ruas e reorganizou a boemia carioca. Sexta-feira à noite? Só depois das 22h20.
Trânsito livre e bares em modo final de novela
Antes mesmo do capítulo começar, às 21h10, o trânsito já estava mais leve do que o normal. Muita gente trocou o chope pós-expediente pelo sofá de casa. Restaurantes que costumam lotar nesse horário sentiram o impacto.
Na Cobal do Leblon, dois telões foram instalados para a ocasião, mas o movimento ficou abaixo do esperado. “Numa sexta-feira normal estaria mais cheio”, comparou o gerente do Pizza Park. A conclusão era simples: o público preferiu viver o momento no conforto do lar — ritual quase sagrado em noite de último capítulo.
No Clipper, também no Leblon, clientes foram embora antes mesmo da novela começar. “Foi todo mundo para casa”, resumiu um dos donos. Prioridades, né?
Tijuca, Lapa e Cinelândia em clima de decisão
Se parte da cidade correu para casa, outra parte transformou bares em arquibancadas. Na Tijuca, TVs ligadas e mesas cheias. No Rota 66, na Praça Vanhargem, rolava até rodada de chope grátis para quem acertasse o assassino de Max. Futebol já teve muito ali — novela foi estreia no telão.
Na Lapa, o bar Leviano entrou de vez na brincadeira: garçons vestidos de Carminha serviam drinques batizados com nomes das rivais. Drama com gelo e limão.
E no Teatro Rival, na Cinelândia, a cantora Teresa Cristina tomou uma decisão estratégica: encerrou o show às 21h em ponto para não disputar atenção com a vilã mais comentada do país. Um telão foi montado no palco para que público e artista acompanhassem juntos o desfecho.
“Desde Vale Tudo não via uma novela causar comoção assim”, comentou a cantora, que assistiu ao capítulo ao lado da mãe, fã assumida da família Tufão.
Ficção que muda a realidade
A revelação do destino de Carminha (Adriana Esteves), assassina confessa de Max (Marcello Novaes), foi acompanhada como se fosse resultado de eleição ou final de Copa. O capítulo teve 70 minutos — tempo suficiente para suspender a vida social da cidade.
Teve gente que usou aniversário como desculpa para reunir amigos, mas todo mundo sabia o verdadeiro motivo do encontro. Teve bar temático, teve aposta, teve show ajustado à grade da novela. E teve, principalmente, a sensação de que o Brasil inteiro estava vivendo a mesma coisa ao mesmo tempo.
Poucas produções conseguem esse feito: transformar ficção em evento coletivo. Naquela noite, o Rio não estava vazio por acaso. Estava em frente à TV.

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